A recente confirmação de que a Sony deixará de produzir mídias físicas para o PlayStation a partir de janeiro de 2028 acendeu um alerta global. O que parecia uma evolução natural e inevitável do consumo digital abre um precedente delicado: sem os discos, o ecossistema do PlayStation torna-se 100% controlado pela própria empresa, levantando dúvidas entre usuários, desenvolvedores e órgãos reguladores sobre se os consoles estão se tornando o equivalente ao iOS no mercado de games.

Na Europa, a aprovação do Digital Markets Act (DMA) obrigou a Apple a abrir mão do monopólio da App Store, permitindo a instalação de lojas de terceiros (como a Epic Games Store e a AltStore) e o sideloading no iPhone. A justificativa das autoridades foi direta: a Apple atuava como uma "guardiã de acesso" que controlava a distribuição, ditava os preços e impunha taxas em um ecossistema fechado.

Historicamente, a indústria de videogames se defendeu desse tipo de enquadramento com dois argumentos centrais:

  • Dispositivo dedicado: Consoles são voltados exclusivamente ao entretenimento, diferentemente dos smartphones, que são ferramentas essenciais para trabalho, comunicação e serviços do dia a dia.
  • Concorrência no mercado físico: A existência de discos garantia que o consumidor não dependesse apenas da loja oficial, podendo escolher compras em varejistas locais e participar do mercado de trocas e jogos usados.

Com o encerramento das mídias físicas, o segundo pilar desmorona. A PlayStation Store passa a ser a única e absoluta fixadora de preços no hardware, e o consumidor deixa de adquirir o bem físico em si para comprar apenas uma licença revogável de uso sob os termos de uma única vitrine digital.

Ilustração conceitual mostrando um disco de jogo PlayStation se dissolvendo em código digital ao lado de um cadeado fechado

Repercussão no Brasil: Senacon, Erika Hilton e o impacto no bolso

O impacto desse movimento já se reflete na política nacional. A deputada federal Erika Hilton acionou a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) pedindo a abertura de uma investigação oficial contra a Sony. A representação questiona o impacto direto sobre os direitos de propriedade e as decisões de compra dos consumidores brasileiros. Rolling Stones

"Há problemas evidentes nisso: os consoles vendidos hoje contam com o leitor de mídia física, o que encarece o hardware, e a mudança abrupta afeta o direito de revenda e doação do consumidor."

O movimento coloca em evidência pontos extremamente sensíveis para o mercado brasileiro:

  • Perda do valor de revenda: A possibilidade de revender um jogo usado sempre foi uma das principais ferramentas do jogador para financiar o próximo lançamento. Sem a mídia física, o custo de entrada em novos títulos permanece travado no valor máximo.
  • Aparelhos encarecidos sem função: Consumidores que pagaram mais caro por versões com leitor de disco correm o risco de ver essa funcionalidade inutilizada para lançamentos futuros.
  • Monopólio de preços: Sem a concorrência e as queimas de estoque do varejo físico, o preço teto de lançamentos digitais passa a ser a única opção disponível.

 

O futuro regulatório: abuso de posição dominante?

Para que a União Europeia force a Sony a liberar lojas de terceiros como a Steam ou a Epic Games Store no PlayStation, a legislação precisará atualizar o escopo da DMA para incluir plataformas dedicadas. No entanto, mesmo sem novas leis específicas, a eliminação completa dos discos abre margem para processos por abuso de posição dominante e práticas anticompetitivas em diversos órgãos de proteção ao consumidor ao redor do mundo.

A migração total para o formato digital é um avanço inevitável ou uma ameaça ao direito de escolha e propriedade do consumidor? Se as mídias físicas realmente deixarem de existir, a Sony deveria ser obrigada a liberar lojas alternativas no PlayStation? Você continuaria consumindo em um console sem mercado de jogos usados? Deixe sua opinião nos comentários e participe da conversa!